Alagoas nunca teve uma semana tão dramática em mudanças no mercado de mídia, publicidade e jornalismo.
Desde que o ministro do Supremo, Luis Roberto Barroso, decidiu liberar a Rede Globo da obrigação de manter a TV Gazeta como afiliada, tanto a Organização Arnon de Mello, que perdeu a filiação, quanto o grupo Asa Branca, que passará a transmitir a Globo no Estado, foram obrigados a correr contra o tempo para se adaptar à decisão.
Desde então, o grupo Asa Branca acelerou o processo de contratações de sua equipe de jornalismo para estrear na próxima segunda (6) a primeira edição do telejornal local, “AB2”, que inicialmente terá apenas uma edição diária noturna às 19h10 (seguida de outra edição no horário do almoço, prevista ainda para outubro, além de um futura edição matinal ainda sem data).
Além do jornalista Mauro Wedekin na direção do jornalismo, com mais de 25 anos de carreira em veículos como Band, SBT, CBN e Record (onde foi repórter de rede na TV Pajuçara), o grupo contará na equipe com o editor-chefe Marcus Toledo (com mais de 25 anos de atuação em telejornais da TV Pajuçara, Ponta Verde e da própria TV Gazeta), a apresentadora Nathália Lopes (com passagens na TV Pajuçara e TV Farol, que apresentará o telejornal) e reportagem de Lucas Malafaia (ex-TV Pajuçara e TV Farol), Henrique Pereira (mais conhecido recentemente como finalista do reality show de narração “Craque da Voz”, da Globo) e Thiffanne Barboza.
Já a Organização Arnon de Mello — que ao perder a filiação da Globo em Alagoas deixou também a representação do portal de notícias G1 —, precisou não apenas acelerar negociações para firmar acordo com uma nova rede nacional (as tratativas, até o momento, indicam que a Rede Bandeirantes é a mais provável), como confirmou a saída de Fernando Collor da participação societária do grupo e de Luiz Amorim da direção executiva — que passaria a ser exercida, ao menos no organograma, por Fernando James (filho do ex-presidente), enquanto Luiz Amorim aparece agora à frente apenas da direção do jornal Gazeta de Alagoas. As mudanças da OAM, como se sabe, foram realizadas para evitar o risco do grupo perder a própria concessão de radiodifusão e ficar sequer sem um canal na grade.
A mudança na programação, que ocorreu literalmente da noite para o dia, deixou não apenas uma série de dúvidas no mercado publicitário (inclusive quanto ao que já estava programado para ser exibido na TV Gazeta), como também sobre como será a futura divisão de audiência e de verbas publicitárias com a chegada de um quarto entrante — que desembarca com a força da Globo nacional.
Para a TV Gazeta, que apesar da perda da filiação da Globo tem um recall nada desprezível de 50 anos de história e liderança no Estado (e uma rede de relações que deve garantir algum fôlego de publicidade pública e institucional para atenuar a inevitável queda da verba privada), o principal desafio será não apenas acelerar sua filiação à nova bandeira nacional, como também o de provar que terá lideranças internas capazes de adequar rapidamente a TV à nova realidade — um desafio e tanto para uma empresa que, mesmo líder de audiência, sofre em Recuperação Judicial com acúmulo de dívidas após repelir no passado toda tentativa de gestão profissional.
Já para a TV Pajuçara, afiliada da Record que conquistou a vice-liderança com um histórico de gestão mais profissional (contratando sempre diretores oriundos do mercado) e evitando confrontos políticos diretos (há quem diga, inclusive, que o grupo poderia ter sido a escolha da Globo em Alagoas caso estivesse disposto ao risco de uma guerra direta com Collor), o desafio é duplo. Além de lutar para manter-se à frente da TV Ponta Verde, afiliada do SBT (que, ao ser comprada pelo Sistema Opinião, com sede em Fortaleza, expandiu investimentos em programação local), terá que se armar para enfrentar também no encalço a TV Gazeta — que precisará ser muito mais agressiva comercialmente para sobreviver.
A TV Asa Branca, por sua vez, precisará provar que, além da vantagem de ter na grade uma programação nacional líder de audiência, terá fôlego para investir em jornalismo e programação local à altura da expectativa do telespectador, do mercado e da própria Globo — que, até para manter intacta sua imagem e reputação, não deve tolerar queda de padrão que faça os alagoanos ter saudades da sua antiga afiliada.
Em meio a tantos desafios e cenários possíveis, o único consenso é que o mercado de TV em Alagoas, agora com quatro emissoras na disputa principal (além de outros canais sem mesmo peso comercial), será bem mais parecido em concorrência com o de outros Estados próximos — como, por exemplo, o da Paraíba, onde a distribuição de verbas publicitárias sempre foi mais equilibrada – e acirrada.
Texto: Jornalista Rodrigo Cavalcante – Portal Agenda A






