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Entre o concreto e o verde: APA Catolé e Fernão Velho resiste como último refúgio da Mata Atlântica em Alagoas

Com 3.817 hectares, a unidade de conservação garante abastecimento hídrico, regula o clima e abriga espécies únicas — mas sofre pressões crescentes da urbanização desordenada.

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Por Lucas Malafaia

Em meio ao crescimento das cidades e ao avanço acelerado da urbanização, resiste um território que, na selva de concreto, é um oásis verde. Guarda a água, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental de toda uma região.

Criada em 1992, a Área de Proteção Ambiental (APA) Catolé e Fernão Velho está localizada entre os municípios de Coqueiro Seco, Maceió, Rio Largo, Santa Luzia do Norte e Satuba, e é um dos mais importantes espaços de uso sustentável de Alagoas.

Divulgação IMA/AL

Com uma área total de 3.817 hectares (38,17 km²), a APA abriga um dos últimos fragmentos de Mata Atlântica no estado, além do reservatório Catolé-Cardoso, responsável por cerca de 14% do abastecimento de água da capital alagoana.

Foto: Ascom Casal

A floresta que abastece a cidade

Para a maioria das pessoas que vive em Maceió, a relação com a APA pode parecer distante. Mas é nas nascentes e no solo coberto pela vegetação nativa que a água infiltra e alimenta os aquíferos. Da estação de tratamento, chega às torneiras.

“O papel da vegetação é estratégico: ela protege as nascentes e permite a conservação, garantindo a recarga dos aquíferos dos mananciais”, explica Johnson Sarmento, gestor da unidade de conservação.

Johnson Sarmento – Gestor da APA Catolé e Fernão Velho. Foto: Arquivo pessoal

A APA combina florestas densas, cursos d’água e áreas de uso comunitário sustentável. Isso significa que são autorizadas a presença de populações e o desenvolvimento de atividades sociais e econômicas, desde que de forma controlada.

Essa diversidade faz da unidade de conservação um espaço essencial não só para o abastecimento urbano, mas também para a manutenção do clima local, a proteção dos solos e a sobrevivência de espécies ameaçadas.

“A APA é um presente natural para toda a comunidade do entorno que se beneficia não só com o aquífero, mas também com a mata. Você acordar todos os dias e ter essa paisagem verde, o clima agradável proporcionado pela vegetação, definitivamente, não tem preço,” afirma Ewerton Matos, morador de Fernão Velho e presidente do instituto comunitário que leva o mesmo nome do bairro.

Ewerton Matos – Presidente do Instituto Fernão Velho. Foto: Arquivo pessoal

A última fronteira da Mata Atlântica em Alagoas

A APA é considerada um dos últimos grandes remanescentes da Mata Atlântica em Alagoas — bioma mais ameaçado Brasil e considerado um dos mais ricos do mundo em biodiversidade. Para se ter uma ideia da importância de se preservar essa área, a Mata Atlântica já perdeu mais de 90% de sua cobertura original em todo o país.

Na APA Catolé e Fernão Velho vivem espécies raras e ameaçadas, algumas endêmicas, ou seja, são encontradas exclusivamente na região.

A bióloga e doutoranda em Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas, Neirevane Nunes, destaca a singularidade da área:

“Pesquisadores já identificaram mais de 40 espécies de anfíbios, incluindo sapos e rãs endêmicas, como a Ololygon skuk, que só existe aqui. Também encontramos mamíferos como o ouriço-cacheiro, a preguiça e o tamanduá, além de aves migratórias.

Rãzinha-deprimida – Foto: Ascom/IMA

Na flora, o murici, o visgueiro e as bromélias, espécies típicas da Mata Atlântica, se destacam, e até vegetação típica de cerrado aparece na parte mais alta, conhecida como ‘cerradinho do Catolé’,” diz Neirevane.

Neirevane Nunes- Bióloga – Foto: Arquivo pessoal

A bióloga reforça o caráter estratégico da unidade:

“Esse fragmento é a última fronteira da Mata Atlântica em Alagoas, inserido no perímetro urbano da região metropolitana de Maceió. É um refúgio de vida silvestre e um corredor ecológico vital para a conservação.”

Vegetação de Mata Atlântica na APA do Catolé e Fernão Velho – Foto: Ascom IMA/AL

Pressões e ameaças crescentes

Apesar de sua importância, a APA enfrenta pressões diárias com o avanço da urbanização desordenada que provoca desmatamento, ocupações irregulares, descarte inadequado de resíduos sólidos e ainda o despejo irregular de esgoto, contaminando o solo e os recursos hídricos. A fiscalização, realizada pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA), se esforça para frear o avanço da degradação.

“O maior desafio do IMA é enfrentar a falta de controle das gestões municipais do entorno da APA sobre as construções irregulares, que provocam essa urbanização desordenada e degradam o meio ambiente”, afirma Johnson Sarmento, gestor da unidade de conservação.

Ainda de acordo com Johnson Sarmento, as fiscalizações na APA são constantes e contam com o apoio do Batalhão de Polícia Ambiental (BPA) da Polícia Militar de Alagoas (PMAL) e da própria comunidade.

Meio ambiente e abastecimento em perigo 

Neirevane Nunes alerta que a degradação na APA ameaça diretamente a biodiversidade e a segurança hídrica da cidade:

“O risco é perder espécies endêmicas da área, principalmente anfíbios, que são muito sensíveis. Além disso, os mananciais da bacia do Catolé podem sofrer erosão, assoreamento e queda na qualidade da água. Isso comprometeria o abastecimento de parte da população de Maceió.”

Ela também chama atenção para uma questão polêmica:

“Outra preocupação é o acordo entre a Braskem e a Casal sobre a ETA Catolé-Cardoso, um sistema estratégico de abastecimento localizado dentro da APA. Transferir sua gestão para a empresa responsável pelo maior crime socioambiental da cidade é uma ameaça grave ao direito da população à água, que é um bem público essencial.”

Degradação

A cada ano, o lugar que deveria ser somente símbolo de preservação, é alvo de ataques. Queimadas, ocupações irregulares e o desmatamento, evidenciam a vulnerabilidade e a fragilidade da APA Catolé e Fernão Velho.

Confira alguns registros:

  • 2015 – Após denúncias de moradores, a equipe do IMA flagra um homem cometendo graves infrações. Ele havia desmatado uma encosta da APA. O local servia para criação de animais e os dejetos contaminavam uma nascente próxima. O responsável foi autuado e obrigado a recuperar a área degradada.
Foto: Ascom IMA/AL

2019– Um terreno é invadido na Mata de Fernão Velho. A ONG Viva Mundaú, instituição voltada para a proteção e conservação do meio ambiente, fez a denúncia ao IMA, que foi acionado, juntamente com o Batalhão de Polícia Ambiental. Ao constatar a irregularidade, a construção foi demolida e os entulhos recolhidos.

  • 2020– Uma fiscalização do IMA e do BPA encontra áreas de criações para bovinos e galinhas levantadas por moradores de condomínios vizinhos à mata, sem nenhuma autorização legal. Os responsáveis pela ocupação irregular também foram autuados e as estruturas retiradas.

  • 2020– Queimadas registradas na mata mobilizam o Corpo de Bombeiros. Segundo moradores, o incêndio, que se estendeu por dias, pode ter sido criminoso ou provocado por oferendas deixadas na região. O combate às chamas também contou com a participação importante da comunidade e da ONG Viva Mundaú, nas áreas onde os militares não conseguiram chegar.

  • 2021 – Crateras gigantes são abertas pela erosão que atinge a região do Matadouro, entre Goiabeiras (Fernão Velho) e a estrada de acesso ao Flexal, em Bebedouro, dentro da APA.

Segundo denúncia feita pela ONG Viva Mundaú à Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminfra), o problema começou após o desaparecimento da tubulação da rede coletora de águas pluviais.

Sem a drenagem adequada, o solo cedeu e deu origem a enormes voçorocas (crateras gigantes), que vêm avançando sobre a área.

A situação tem sido acompanhada pelo IMA e por órgãos como o Ministério Público Estadual (MPAL) e secretarias municipais. O órgão ambiental chegou a embargar uma obra, na Santa Amélia, por causa do direcionamento inadequado da água da chuva, que poderia comprometer outras encostas da região.

Medidas urgentes

Diante da fragilidade da área, Neirevane Nunes reforça que medidas urgentes precisam ser tomadas:

“É prioritário restaurar áreas degradadas, proteger as margens de rios com vegetação nativa, criar corredores de conexão entre fragmentos de mata, intensificar a fiscalização contra ocupações irregulares e ampliar os programas de educação ambiental junto às comunidades vizinhas.”

Vozes da conservação

Apesar dos desafios, existem iniciativas que remam contra a maré da devastação. ONGs e projetos de educação ambiental tentam aproximar a comunidade da causa da preservação.

A ONG Viva Mundaú, já citada nessa reportagem, é um exemplo.  Ela atua com a proposta de proteger a APA, para assegurar, além das árvores, água limpa, ar puro e equilíbrio ambiental.

Sandro Accioly, presidente da ONG, afirma que tem procurado várias formas de conter o avanço imobiliário desordenado, as queimadas e o desmatamento na região. A principal estratégia, segundo ele, foi ingressar e participar ativamente do Conselho da APA Catolé e Fernão Velho. Com isso, afirma que tem conseguido mobilizar instituições e moradores da região para reflorestar e proteger a APA:

“O avanço da tecnologia e das redes sociais tem sido uma ferramenta de grande valor. A população fica sabendo o que está acontecendo, todos têm acesso às informações e as compartilham. As denúncias chegam mais rápido e as respostas também”, afirma.

Sandro Accioly- Presidente da ONG Viva Mundaú – Foto: Arquivo pessoal

A união faz a força

Sandro destaca ainda os trabalhos realizados em parceria para a conservação da APA:

“Além do IMA, BPA e Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), trabalhamos junto com outras instituições, a exemplo do Instituto Fernão Velho.  O reflorestamento é uma das ações conjuntas para a conservação da Mata Atlântica e a proteção do manancial que abastece parte de Maceió”, destaca Sandro.

Plantio de mudas doadas pelo IMA – Foto: ONG Viva Mundaú

Outro aliado na proposta de preservar a APA Catolé e Fernão Velho é o Instituto Fernão Velho (INFEV). A organização sem fins lucrativos, criada em 2022, trabalha para sensibilizar a comunidade sobre a importância da conservação ambiental, promovendo atividades educativas e mobilização social.

Educação ambiental e trilhas ecológicas

Entre as iniciativas desenvolvidas pelo instituto estão as trilhas ecológicas guiadas e projetos educativos que aproximam os moradores e visitantes da realidade ambiental da região. As ações buscam não apenas incentivar a proteção da fauna e da flora, mas também mostrar a relevância da APA para o equilíbrio ecológico e a qualidade de vida das comunidades locais.

“Fundamos o instituto com a missão de aproximar as pessoas da realidade local”, explica o presidente do INFEV, Ewerton Matos. “Acreditamos que, ao vivenciarem de perto essa experiência, os moradores passam a valorizar e respeitar muito mais a natureza e a biodiversidade que fazem parte da comunidade.”

Ele conta que muitos moradores, por vezes, se sentem desacreditados, pois nem sempre conseguem enxergar, na prática, os avanços necessários para a preservação da APA. “Lutando juntos, esperamos conseguir melhorias e acabar de vez com esse pensamento da comunidade. A meta é fazer com que eles possam participar, que sejam ouvidos e que vejam os resultados acontecendo”, afirma.

Trilha na APA – Foto: Jonathan Lins/Secom Maceió

IMA e a educação ambiental

O IMA também aposta na educação ambiental como arma eficaz contra a degradação. Para isso, realiza diversas ações com estudantes de diferentes idades, desde o nível do ensino infantil até o superior.

“Realizamos trilhas ecológicas na APA, ações com o BPA e instituições parceiras. Na abordagem, falamos sobre os reservatórios existentes, a vegetação e a fauna característica. Buscamos sempre essa conscientização por meio de vários programas do IMA, a exemplo do ‘Botânico Mirim’ e do ‘Alagoas Mais Verde’, que promove a arborização, a recuperação de áreas degradadas e o reflorestamento de matas ciliares através da doação de mudas de espécies nativas”, detalha Johnson Sarmento, gestor da unidade de conservação.

 Foto: Ascom IMA/AL

Além das ações presenciais, o IMA também tem a comunicação como estratégia. Publicações no site do órgão e nas redes sociais ressaltam a importância da preservação, alertando para a legislação vigente e para as possíveis penalidades em caso de descumprimento.

Vídeo: Ascom IMA/AL

Ciência e conservação: pesquisa na APA

A Área de Proteção Ambiental (APA) Catolé e Fernão Velho foi objeto da dissertação de mestrado do professor Marcelo Lima Verde, apresentada em 2010 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

O estudo analisou os conflitos socioambientais da unidade de conservação e identificou, já naquela época, um descompasso histórico entre as políticas de habitação social e de preservação ambiental. Como essas políticas não caminhavam juntas, surgiam dilemas sempre que a defesa do meio ambiente entrava em choque com o direito à moradia — ambos garantidos por lei.

Hoje, segundo Lima Verde, atualmente doutorando em Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas, a situação se agravou devido à pressão imobiliária.

“A cidade vem sofrendo nos últimos anos a perda de território pelo crime ambiental da mineração, que resultou na expulsão de mais de 60 mil pessoas de suas casas. Estamos falando da perda de mais de 14 mil imóveis, além das mais de 6 mil empresas. Fatores que contribuíram diretamente para o aumento da pressão imobiliária em outras áreas, incluindo nas que estão próximas à APA”, explica o pesquisador.

Professor Marcelo Lima Verde – Foto: Arquivo pessoal

Outro fator que, segundo ele, dificulta o ordenamento urbano e, consequentemente, representa uma ameaça ambiental, é a defasagem do Plano Diretor de Maceió:

“Há 20 anos o município de Maceió não atualiza o seu Plano Diretor. Esse seria o documento norteador das políticas públicas voltadas ao ordenamento sócio- urbanístico da cidade. Sem ele, o crescimento é desordenado, e as políticas de habitação social e preservação ambiental seguem descompassadas.”

Avanços

Apesar das dificuldades, o cenário não é só de retrocessos. Em 2010, a pesquisa de Lima Verde revelou que a maioria dos moradores do entorno da APA era indiferente ao tema da preservação ambiental. Hoje, essa realidade mudou.

Ações do Instituto do Meio Ambiente (IMA) e de instituições como a ONG Viva Mundaú e o Instituto Fernão Velho vêm fortalecendo a consciência comunitária sobre a importância da conservação. Essa mudança se reflete nas denúncias feitas por moradores e nas mobilizações sociais em defesa da APA, expostas nesta reportagem.

Outro avanço diz respeito à fiscalização.

“Quando realizei a pesquisa, um dos principais problemas apontados foi a falta de pessoal para dar suporte às unidades de conservação. Hoje, as equipes estão mais estruturadas”, observa Lima Verde.

O que ainda precisa avançar

Para garantir a preservação ambiental da APA Catolé e Fernão Velho, ainda há muito a ser feito. De acordo com Lima Verde, o caminho passa pela sintonia entre comunidade, poder público e meio ambiente. Nesse processo, as universidades têm um papel fundamental.

“O papel da universidade é responder, através de suas pesquisas, aos gargalos da nossa sociedade. Essa é a função social das universidades: o ensino, a pesquisa e a extensão, levando desenvolvimento social, intelectual e econômico”, defende.

Ele acrescenta que é urgente democratizar o conhecimento:

“É preciso investir em participação coletiva, interdisciplinar e integração dos conhecimentos desenvolvidos pelos nossos pesquisadores com a comunidade, o poder público e, logicamente, com o meio ambiente.”

O futuro: preservação ou colapso?

O destino da APA Catolé e Fernão Velho está em aberto e depende de escolhas coletivas. As consequências, sejam elas negativas ou não, também serão coletivas. Afinal de contas, a floresta e a água potável que a APA protege não são só da comunidade local. O patrimônio natural é de todos, inclusive das próximas gerações, que têm direito à água limpa e a um futuro sustentável.

Mas a natureza, sábia que é, tem dado alertas: a vida só floresce onde há cuidado. Sem preservação, não existe amanhã.

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