- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img
HomeEntretenimentoArtigo: Justin Bieber leva YouTube ao palco do Coachella e redefine shows...
- Publicidade -spot_img

Artigo: Justin Bieber leva YouTube ao palco do Coachella e redefine shows ao vivo, analisa Clarissa Antunes

Entre críticas de “falta de produção” e leituras mais conceituais, o show aponta uma transição na forma como consumimos entretenimento, baseada em reconhecimento, memória e interface.

- Publicidade -spot_img

O palco parecia simples demais para o Coachella. Não simples no sentido estético, mas estrutural. Faltava algo que a gente aprendeu a esperar de grandes performances: construção teatral, progressão, algum tipo de mediação entre artista e público. No lugar disso havia um notebook aberto, o YouTube projetado em uma tela gigante e Justin navegando na plataforma como qualquer um de nós. Ele abria um vídeo, cantava, passava para o próximo, e a sensação inicial de estranhamento era quase inevitável.

O artigo é assinado por Clarissa Antunes – Product Marketing Manager e pesquisadora em inteligência artificial aplicada a comportamento digital

A reação veio rápido, e ela é interessante porque ajuda a entender o que está em jogo. “Cadê a produção?”, “isso é um show?”, “ele ganhou milhões pra abrir o YouTube?”. Essas perguntas parecem críticas ao formato, mas na prática expõem um desalinhamento entre expectativa e linguagem. O palco ainda é lido com a lógica do espetáculo, enquanto talvez o que esteja acontecendo ali já pertença a outra camada de consumo.

A gente já consome música dessa forma há bastante tempo, sem perceber. O YouTube aberto com uma música puxando a outra, reprodução no automático, sem necessariamente ter começo, meio e fim. Existe sequência, associação, repetição e uma narrativa construída pelo próprio usuário.

O que o Justin Bieber fez foi deslocar o nosso próprio comportamento para o centro do palco, e isso muda a nossa lógica de interpretação. O público não está reagindo ao desconhecido, mas ao reconhecível, porque é muito fácil abrir o YouTube e apertar no play. By the way, a gente faz isso todos os dias.

A crítica à “falta de produção” faz sentido dentro de uma lógica que ainda persiste para muita gente, onde valor está associado à intensidade de estímulo. É preciso ter mais luz e mais fogos de artifício para que o cérebro interprete “wow, esse é um artista de verdade”. Só que esse modelo tem um limite e, pasme, já está saturado para muita gente também. Quando tudo é grandioso demais, exagerado demais, e tudo ao nosso redor começa a tomar a mesma forma, o diferencial muda de direção. A produção do “Bieberchella” (como os fãs apelidaram carinhosamente) segue uma lógica inversa, trazendo a redução como estratégia e tirando as camadas de exagero para concentrar a atenção das pessoas na história do garoto real que existe por trás das telas.

Esse movimento ganha ainda mais peso quando ele decide incluir no set um vídeo de crise pessoal, algo que em outro momento circulou como conteúdo viral fora do seu controle. Ao trazer isso para o palco e narrar ao vivo, ele muda completamente o enquadramento, se reapropriando da própria história.

No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja se aquilo foi ou não um “bom show”, mas o que esse formato revela sobre o momento atual. Existe uma mudança acontecendo na forma como valor é percebido em experiências culturais, com menos dependência de espetáculo e mais abertura para formatos que operam na lógica da memória e da familiaridade.

Saiba mais: https://www.instagram.com/p/DXDF0nNEa8b/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

O notebook não é o ponto. O ponto é que esse tipo de consumo já vinha sendo praticado há anos, e o estranhamento não vem necessariamente do que foi apresentado, mas do fato de que a gente ainda está tentando interpretar com uma régua que talvez já tenha mudado.

Clarissa Antunes é especialista em marketing digital, e no mercado de tecnologia artificial
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img
Leia Também
Leia Mais