O que um dos maiores nomes da música brasileira tem a ver com o fundo do mar? A resposta vem da ciência, e passa por Alagoas, claro!
Pesquisa de doutorado do biólogo e mestre pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), André Felipe Bispo da Silva, registrou dez novas espécies de esponjas marinhas e chamou a atenção não apenas pela descoberta, mas também pelos nomes escolhidos para identificá-las.
Entre elas está a Haliclona djavani, batizada em homenagem ao cantor alagoano Djavan. A escolha não foi por acaso. Além da admiração pessoal, o pesquisador encontrou uma conexão curiosa entre a história do artista e o ambiente onde a espécie foi localizada: a região portuária de Maceió.
“A espécie que homenageia Djavan é uma reverência a esse grande artista, cujas músicas fazem parte do meu dia a dia”, explica André.
“E Djavan conta que seu nome foi escolhido por ter sua mãe sonhado com um navio com este nome. Depois também percebi que a forma da esponja lembra até os “dreads” que Djavan usa”, acrescenta.
Mas Djavan não foi o único homenageado. A pesquisa também deu origem à Haliclona ladislaui, em referência ao naturalista alagoano Ladislau Netto, figura importante para a história da ciência no Brasil.
“Foi uma forma que encontrei de homenagear minhas raízes e também pessoas que contribuíram para essa pesquisa”, conta o cientista.
“Ladislau Netto foi um grande naturalista brasileiro e foi ele quem levou o Museu Nacional para o Paço de São Cristóvão, que infelizmente pegou fogo em 2018 durante o meu doutorado, mas não afetou a minha pesquisa, pois não atingiu o prédio anexo onde ficava o laboratório dos estudos científicos. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer para diversos outros colegas. Uma vez que Ladislau Netto era alagoano, aproveitei esse contexto para homenageá-lo com uma espécie que ocorre em Alagoas”, acrescentou.
A dimensão pessoal da descoberta vai além. André também eternizou nomes da própria família na ciência, com espécies como Haliclona ivanae e Haliclona helenae.
“Durante o meu doutorado, o apoio familiar foi fundamental”, afirma, lembrando que a trajetória acadêmica foi marcada por desafios e conquistas compartilhadas.
Ao todo, o estudo registrou dez novas espécies de esponjas marinhas, sendo cinco com ocorrências no litoral de Alagoas: quatro na Praia do Francês, em Marechal Deodoro, e uma em Maceió. A descoberta amplia o conhecimento sobre a biodiversidade marinha brasileira e revela um universo ainda pouco conhecido sob as águas.
O papel das discretas esponjas
Apesar de discretas, as esponjas desempenham um papel essencial no equilíbrio dos oceanos.
“Uma de suas principais características é que são animais filtradores, ou seja, filtram a água ao seu redor absorvendo-a por poros na sua superfície”, explica o pesquisador. Esse processo contribui diretamente para a qualidade da água e para a dinâmica da vida marinha.
Além disso, esses organismos servem de abrigo para outras espécies e produzem substâncias com potencial uso científico e tecnológico. No mundo, são cerca de 9,8 mil espécies conhecidas — aproximadamente 600 registradas no Brasil. As novas descobertas indicam que ainda há muito a ser revelado.
Com nomes que carregam histórias, afetos e referências culturais, as espécies recém-registradas mostram que a ciência também é feita de conexões humanas. E deixam um convite implícito: olhar para o mar com mais curiosidade.
“A gente toma banho em águas que escondem ainda muita vida a ser conhecida”, resume André.
Fonte: Portal ALNB e Ascom Ufal






